sábado, 17 de janeiro de 2026

A política sem alma e o homem que esqueceu o óbvio


G. K. Chesterton nunca foi um pensador político no sentido técnico do termo. Não construiu sistemas fechados, nem propôs modelos institucionais detalhados. Ainda assim, poucos autores foram tão lúcidos ao diagnosticar as doenças políticas da modernidade. Seu método não era o da engenharia social, mas o do bom senso elevado à filosofia — algo perigosamente raro em qualquer época, sobretudo na nossa.

Para Chesterton, o maior erro político moderno não está em escolher o partido errado, mas em esquecer o que é o homem. Toda política nasce, inevitavelmente, de uma antropologia. Quando essa antropologia é falsa, todo o edifício — por mais sofisticado que pareça — torna-se opressivo.

O progresso que anda em círculos
Chesterton ironizava a ideia moderna de progresso como um movimento automático e inevitável. Em Ortodoxia, ele observa que o progresso, quando desligado de um fim moral, não passa de movimento sem direção. Um louco, dizia ele, não é aquele que perdeu a razão, mas aquele que perdeu tudo menos a razão. O mesmo vale para as ideologias políticas modernas: elas são perfeitamente racionais internamente, mas partem de premissas absurdas.

Quando o progresso deixa de ser o aperfeiçoamento do que é bom e passa a ser a negação sistemática da tradição, ele se transforma em regressão disfarçada. A política, nesse cenário, não melhora o homem; tenta reprogramá-lo.

O Estado grande e o homem pequeno
Um dos grandes temores de Chesterton era o crescimento do Estado acompanhado da diminuição da pessoa. Quanto mais o Estado se torna “protetor”, mais o indivíduo se torna infantilizado. Não se trata apenas de impostos ou burocracia, mas de algo mais profundo: a substituição da responsabilidade pessoal por uma tutela permanente.

Chesterton percebia que o problema não era apenas o socialismo, mas também certas formas de liberalismo que, ao dissolver comunidades naturais — família, igreja, tradições locais —, acabam deixando o indivíduo isolado diante de um poder central gigantesco. O resultado é paradoxal: uma sociedade que se diz libertária, mas produz homens cada vez mais dependentes.

A democracia dos mortos
Talvez uma das ideias mais célebres de Chesterton seja sua definição de tradição como a “democracia dos mortos”. Para ele, ignorar o passado não é sinal de inteligência, mas de arrogância cronológica. O homem moderno acredita que estar vivo hoje lhe confere superioridade moral automática sobre todos os que vieram antes.

Politicamente, isso se traduz em reformas apressadas, legislações voláteis e uma instabilidade constante. Quando nada é sagrado, nada é estável. Quando tudo pode ser redefinido, tudo pode ser imposto.

Ideologias como novas religiões
Chesterton enxergou antes de muitos que as ideologias modernas não eliminariam o espírito religioso, apenas o deslocariam. O problema não é que o homem moderno deixou de crer; é que passou a crer em coisas menores, com fervor maior e senso crítico menor.

O resultado político disso são movimentos que tratam o dissenso como heresia, o adversário como inimigo moral e o Estado como instrumento de redenção. Onde antes havia prudência política, surge o fanatismo secular.

O retorno ao óbvio
A resposta chestertoniana à crise política não é revolucionária no sentido moderno; é restauradora. Não se trata de voltar a um passado idealizado, mas de recuperar verdades permanentes: o homem é falho; o poder precisa de limites; a família precede o Estado; a moral não nasce da lei, a lei nasce da moral.

Chesterton não confiava em utopias porque conhecia bem o coração humano. Para ele, a política saudável começa com humildade: a aceitação de que o mundo é imperfeito e que qualquer tentativa de torná-lo perfeito à força termina em tirania.

Conclusão
Num tempo em que a política se tornou uma disputa de narrativas messiânicas, Chesterton permanece atual justamente por ser antimessiânico. Ele nos lembra que o papel da política não é criar o paraíso, mas evitar o inferno — e que o inferno político começa quando esquecemos aquilo que sempre soubemos, mas deixamos de admitir: o homem não precisa ser reinventado, precisa ser levado a sério.

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