O conflito entre Estados Unidos e Venezuela não pode ser compreendido apenas como uma disputa geopolítica por petróleo ou influência regional. Ele revela algo mais profundo: a crise do espírito político moderno, exatamente como diagnosticaram Ortega y Gasset e G. K. Chesterton, cada um a seu modo.
Ortega y Gasset: o império da força sem consciência histórica
Para Ortega, em A Rebelião das Massas, o grande perigo da modernidade é quando o poder se separa da responsabilidade histórica. O “homem-massa” acredita que a técnica, a força ou a superioridade material lhe conferem automaticamente o direito de decidir o destino dos outros.
Aplicando isso ao conflito EUA–Venezuela, percebe-se uma lógica perigosa:
👉 quem tem poder militar e econômico passa a acreditar que tem legitimidade moral automática.
Ortega advertia que quando a política se reduz à técnica — sanções, bloqueios, intervenções “cirúrgicas” — ela deixa de ser política e se torna barbárie organizada. A ausência de limites morais claros transforma a ação internacional em um exercício de vontade nua, desconectada de prudência, tradição e mediação.
Ao mesmo tempo, o regime venezuelano também encarna o diagnóstico orteguiano: uma elite que fala em nome do povo enquanto o sufoca, reduzindo a nação a um instrumento ideológico. Ortega veria aí dois polos do mesmo erro moderno:
🔴 o autoritarismo populista
🔵 o intervencionismo tecnocrático
Ambos ignoram que a política verdadeira exige limites, continuidade histórica e senso trágico da realidade.
Chesterton: quando o mundo perde o senso moral comum
Chesterton ajuda a ir ainda mais fundo. Para ele, o problema central da modernidade não é a falta de inteligência, mas a perda do bom senso moral. Em Ortodoxia e O Que Há de Errado com o Mundo, Chesterton alerta: quando as grandes potências abandonam princípios objetivos, tudo passa a ser justificado em nome de “boas intenções”.
No discurso internacional contemporâneo, isso é evidente:
Intervenções são chamadas de “defesa da democracia”;
Sanções que empobrecem populações inteiras viram “pressão humanitária”;
A soberania deixa de ser um princípio e vira um detalhe inconveniente.
Chesterton diria que esse tipo de lógica é típica de uma civilização que perdeu a noção do limite moral, acreditando que fins abstratos justificam quaisquer meios concretos. O resultado não é justiça, mas cinismo travestido de virtude.
Ao mesmo tempo, Chesterton não romantizaria o regime venezuelano. Ele desconfiava profundamente de sistemas que prometem paraísos políticos enquanto destroem a vida cotidiana do povo. Para ele, quando o Estado cresce demais — seja socialista ou imperial — o homem comum desaparece.
Conclusão: dois erros modernos se enfrentam
Sob a ótica de Ortega y Gasset e Chesterton, o conflito EUA–Venezuela não é uma luta entre “bem e mal”, mas entre dois erros típicos da modernidade:
De um lado, o imperialismo técnico, que confunde poder com direito.
Do outro, o autoritarismo ideológico, que confunde discurso popular com legitimidade real.
Ambos ignoram aquilo que os dois pensadores consideravam essencial:
✔ limites morais objetivos
✔ respeito à realidade concreta
✔ prudência política
✔ centralidade da pessoa humana, não do sistema
Quando essas virtudes desaparecem, o resultado não é ordem internacional, mas instabilidade permanente, cinismo moral e sofrimento dos povos — sempre usados como retórica, nunca como prioridade real.
Como diria Chesterton, o mundo moderno não está cheio de homens maus, mas de homens bons com ideias erradas. E como alertaria Ortega, quando essas ideias erradas ganham poder, a civilização entra em sua fase mais perigosa: aquela em que ninguém acredita estar errado.

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